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Vamos debater? BBB21, poetry slam e espaço público.

O que os debates no entorno do slammer Lucas Koka, no BBB21, nos revelam sobre o espaço público brasileiro?

Por Gabriela Bortolozzo.

Independentemente de você seguir o programa da Rede Globo, o Big Brother Brasil 2021 (BBB21), com certeza você já ouviu falar, viu ou leu algo sobre os debates que giraram entorno da figura de Lucas Koka nome artístico do ex-integrante do programa , ativista de movimentos sociais e artista, que sofreu diversos preconceitos e coesões dentro da casa do BBB21. Por isso, para início de conversa, é necessário que se saiba como Koka eclodiu nas mídias sociais, e como a sua presença em um programa de reality show, foi passível de fomentar debates tão latentes na contemporaneidade.

Existe um movimento chamado poetry slamou apenas slam , que surgiu nos EUA nos anos de 1980 e se espraiou pelo mundo rapidamente, chegando ao Brasil perto de 2010. Esse movimento é difícil de ser resumidamente definido, mas consiste em rodas de poesia que – mais especificamente nos casos brasileiros – se dão em espaços públicos e comuns, para que se recitem as chamadas “poesias marginais”. Nestas rodas se dão disputas, nas quais pessoas competem com suas poesias autorais, buscando desvelar quais os conteúdos e/ou rimas que desencadeiam as maiores emoções e reações do público e dos “jurados” pessoas voluntárias e sem formação específica, que se propõe a avaliar tais poesias.

Por tratar-se de “poesias marginais”, os poetas que disputam no poetry slam – denominados de slammers costumam versar sobre suas realidades, histórias e temas que os atravessam como: feminismo, negritude, racismo, periferia, LGBTQI+fobia, política, inclusão de pessoas com deficiência (PcD), entre outros múltiplos assuntos recorrentes nos debates atuais da sociedade.

Fonte: Monomito Filmes (2019)


Por esse motivo, podemos dizer que de maneira geral, os “poetas marginais” que escolhem se auto intitular desta forma compreendem que são originários de uma parcela marginalizada da sociedade, e que os slams são espaços possíveis para suas livres expressões. Assim, podemos afirmar também, que esses espaços são políticos, artísticos e sociais, pois reverberam sobre debates de interesse público.

Lucas Koka, que foi militante das Jornadas de Junho em 2013, do Movimento Estudantil secundarista de 2014 a 2016, ao mesmo tempo em que estreou sua carreira como slammer, ganhou destaque como artista. Apenas para termos exemplos: em 2017-18 atuou na novela “Malhação”; em 2019 foi um dos finalistas do Campeonato Paulista de Poesia Falada, chegando a disputar o Slam BR – campeonato nacional de poetry slam. Mas, a trajetória que mescla ativismo com arte, não é exclusiva de Lucas, pois é comum que slammers se envolvam – ou já sejam envolvidos – com outros movimentos sociais e manifestações artísticas, como o Hip-hop que englobou os slams em sua própria cultura.

O caráter político dessas manifestações artísticas levou durante um bom tempo os temas e debates aqui citados para o espaço público brasileiro – para que se tenha uma noção, antes da pandemia, segundo dados do Slam BR (2019), existiam mais de 200 slams no Brasil, sendo que mais de ¼ se davam exclusivamente em espaços públicos como praças, ruas, parques e largos.

Porém, as problemáticas que os espectadores observaram no reality, tais como a tensão racial e de classes sociais, a bifobia e a dúvida sobre a legitimidade dos ativismos, que circundaram a pessoa de Koka, foram apenas um reflexo ínfimo do que ativistas e artistas enfrentam todos os dias nas ruas das cidades brasileiras. Se voltarmos nossos olhares com tanta atenção para nossos espaços públicos quanto miramos para o programa televisivo, talvez descubramos que as ruas têm muito mais a nos ensinar.

Bibliografia:

D´ALVA, Roberta Estrela. Teatro hip-hop: a performance poética do ator-MC. 1.ed. São Paulo: Perspectiva, 2014. 176 p.

NASCIMENTO, Erica Peçanha. “Literatura Marginal”: Os escritores da periferia entram em cena. 2006. 203 f. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo.

SLAMBR.19. Campeonato Brasileiro de Poesia Falada. São Paulo: SESC, 2019. Catálogo do evento.

SOMERS-WILLET, Susan B. A. The Cultural Politics of Slam Poetry: Race, Identity and The Performance of Popular Verse in America. Michigan: The University of Michigan Press, 2009.

SOUZA, Thiago Barbosa. A performance na cantoria nordestina e no slam. 2011. 137 f. Dissertação de Mestrado. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará.