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Quando um trilho vira espaço de lazer: o caso da Vila Oficinas, em Curitiba

Por Janelize Rodrigues


A região conhecida como Vila Oficinas é uma das várias vilas que compõem hoje o Bairro do Cajuru, situada na zona leste da cidade de Curitiba. O nome foi dado devido a construção das oficinas de trens na década de 40 pela Rede de Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC) e que corresponderia a um dos trechos da linha férrea Curitiba/Paranaguá. À medida que as instalações destas oficinas se consolidavam, o bairro do Cajuru, que até então era bastante despovoado, foi ganhando obras de infraestrutura e atraindo novos habitantes. Hoje, o bairro detém a marca de terceiro mais populoso da cidade de Curitiba, com cerca de 90.000 habitantes.

Por conta desta sua proximidade com a história ferroviária da cidade, a Vila Oficinas é cortada por alguns trilhos e o seu cotidiano se confunde com a rotina dos trens. Um caso específico diz respeito a um elevado de terra de cerca de 7 metros, onde está localizado o trilho que sai das oficinas de trens e que vai se encontrar com o ramal Curitiba/Paranaguá mais à frente. Este elevado de terra divide a região da Vila Oficinas em duas partes distintas, impossibilitando a passagem de veículos automotivos e tornando possível atravessar somente a pé. Esta região, portanto, acabou se transformando em um ponto estratégico para uma prática de lazer muito comum em bairros de periferia: o de soltar raias*. Como a região do elevado impossibilita a passagem de veículos e as margens dos trilhos correspondem a terrenos vazios, os jovens da região apropriam-se desse espaço, que serviria tão somente como local de trânsito dos trens, para esta prática específica de lazer. Uma vez que o elevado de terra possui cerca de 7 metros, o trilho também permanece acima dos telhados das casas ao redor, o que facilita ainda mais a prática, já que estas não correm tanto o risco de se prenderem nos fios elétricos ou telhados.



Soltar raias – ou pipas e papagaio como é conhecido em outras regiões do Brasil – é uma prática recorrente em bairros pobres ou de periferia, uma vez que pode ser considerada como barata e que se torna mais significativa em locais que apresentam uma grande concentração do público jovem. No caso específico do trilho na Vila Oficinas, as raias são soltadas com cerol – uma mistura feita de cola, água quente e vidro extremamente moído, que é passada nos fios da raia com a finalidade de cortar os fios das outras. É possível certificar-se disso uma vez que cada jovem carrega consigo não somente uma, mas várias raias, no caso de ter sua raia “cortada” por outra pessoa. O uso do cerol é motivo de muitos debates e polêmicas, uma vez que muitos acidentes podem ocorrer por conta da alta capacidade de corte deste fio, tendo inclusive sido criadas leis municipais que estipulam multas para quem for pego soltando raias com cerol. O trilho situado no morro também deixa evidente a rivalidade criada entre seus praticantes, uma vez que os jovens que ali estão só caçam raias de outras regiões ao redor, como da região do Capão da Imbuia ou da COHAB da Vila Oficinas, locais próximos, mas que não pertencem ao mesmo “pedaço”¹ que o dos jovens do trilho.

Neste exemplo da Vila Oficinas, percebemos que um local de passagem como os trilhos do trem, que já possuem uma característica e funções bem definidas, ganham novos significados e importância. Para os jovens da Vila Oficinas, ele é um ponto de lazer, um local estratégico para a prática de soltar raias e que pode, inclusive, ser responsável pela formação de um grupo de pessoas que se identificam entre si por conta de um mesmo objetivo. De maneira geral, os trilhos de trem que cortam hoje os centros urbanos do país, foram responsáveis no passado, pelo desenvolvimento destas cidades, uma vez que estar próximo aos trilhos do trem representava um sinônimo ou uma busca por progresso. Hoje em dia, sabemos que estes trilhos carregam consigo outros estigmas, como os problemas causados pelo congestionamento de vias centrais por onde o trem passa diariamente, o barulho e os acidentes causados com veículos e pessoas. Não raro, o trilho, desta vez em regiões periféricas, é escolhido como cenário do desfecho violento entre gangues rivais, usuários e pessoas envolvidas com o comércio de drogas, servindo também para demarcar o território entre grupos rivais. O fato é que à medida que os grandes centros urbanos crescem e se desenvolvem, as dinâmicas de convívio entre seus habitantes e os significados dos espaços públicos que estas compartilham mudam consideravelmente. Portanto, locais que se definiam antes por uma única função específica, ganham outros significados e passam a incorporar o cotidiano das pessoas de outras maneiras. Que outros espaços públicos que você conhece em sua cidade possuem estas ressignificações? Seriam elas benéficas para seus habitantes ou motivo de preocupação para o poder público?

*Utilizo aqui o termo “raias” que é o mais comum entre os jovens de Curitiba e Região Metropolitana para se referirem as “pipas” ou “papagaios”, como são conhecidos em outros locais do país.


Referências bibliográficas

MAGNANI, José G.C. Da periferia ao centro: trajetórias de pesquisa em Antropologia Urbana. São Paulo: Terceiro Nome, 2012.

_______. Festa no Pedaço: cultura popular e lazer na cidade. São Paulo: Brasiliense, 1984.

OLIVEIRA, Dennison de. Urbanização e industrialização no Paraná. Curitiba, PR: Seed, 2001