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Os “não-lugares” e as ressignificações dos espaços públicos, por Janelize Rodrigues

Quando nos referimos ao conceito de espaço público, podemos imaginar um local que se difere do espaço privado e da vida que tange o local que residimos, onde pessoas dos mais diversos locais convivem e utilizam aquele espaço de forma coletiva. Mesmo assim, em virtude das mudanças aceleradas que percebemos nos grandes centros urbanos ou nas cidades contemporâneas ao redor do mundo, novas ideias são debatidas procurando redefinir conceitos como “espaço público” ou “lugar”, por exemplo. A antropologia é uma ciência que vem levantando novas inquietudes principalmente quando procura analisar a relação dos espaços definidos de forma geográfica e física por meio das relações sociais e da interação humana com estes lugares. O antropólogo francês Marc Augé é um destes pesquisadores que buscam nos grandes centros urbanos e nas mudanças constantes da dita “supermodernidade” novos dilemas sobre a sociedade contemporânea e suas relações interpessoais.

No livro “Não Lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade” de 1992, o antropólogo afirma que o mundo contemporâneo trouxe aos espaços públicos novas definições. Segundo Augé, um “lugar” só pode ser definido a partir do momento em que ele se coloca como identitário, histórico e relacional para um ou mais indivíduos de uma sociedade. Diante de uma nova realidade do mundo contemporâneo, a antropóloga afirma que criaram-se “não-lugares”, ou seja, locais de passagem que se opõem ao fazer e viver antropológico, como vias de transporte, aeroportos, grandes redes de hipermercados, dentre outros. Estes “não-lugares” estariam dotados de ideias pré-determinadas e superficiais que impedem ou dificultam as relações interpessoais, criando uma espécie de “tensão solitária” no mundo.

As Feiras Livres são um grande exemplo de como ressignificar espaços definidos como “não-lugares”, uma vez que a rua deixa de ser uma via de passagem e ganha vida, cor e interação social entre feirantes e compradores.

Hoje é possível unir a esta problemática colocada por Augé a própria questão da internet e da expansão das redes sociais nas relações pessoais. O mundo virtual passa a ser também um “não-lugar” uma vez que promove encontros, sensações e experiências, porém que são pré-determinadas ou que seguem um padrão, impossibilitando uma real interação entre seus indivíduos. Não à toa, com o aumento do uso da internet em áreas da vida como o trabalho ou a educação por conta da pandemia de Covid-19, nos deparamos com o uso constante de notebooks, tablets e celulares em nossos lares, desqualificando a casa como um “lugar” e passando a viver um mundo virtual, utópico e “não antropológico”, ou seja, um “não-lugar”.

Em meio a efemeridade do mundo contemporâneo, será possível nos mantermos mais conectados socialmente ou cada vez mais os espaços, privados ou públicos, nos afastam e nos individualizam? Se passarmos a sensibilizar cada vez mais o nosso olhar, veremos que até mesmo os “não-lugares” podem ser dotados de ressignificados definidos pelas mais diversas formas de relações sociais, situação essa amplamente debatida nos trabalhos de José Guilherme C. Magnani, por exemplo. Quantas ruas deixam de ser locais de passagem e passam a ser ponto de encontro em dias de Feira Livre ou local de práticas esportivas como skate ou futebol? O sinaleiro da via rápida dá espaço a arte e ao entretenimento se olharmos com mais atenção para o malabarista ou para o artista de primeira viagem. O trilho de trem deixa de servir única e exclusivamente para carregar o trem e seus vagões quando avistamos uma vasilha de barro juntamente de velas derretidas e algumas flores: aqui o trilho exerce o caminho entre alguma aspiração de um ser humano e uma das tantas manifestações de Ogum, a de um velho ferreiro, Òrìṣà Alágbèdẹ. Em uma entrevista ao jornal El Pais de 2019, Marc Augé nos estimula a fugir dos males das falsas interatividades quando fala da necessidade de nos conectarmos com “as pequenas felicidades”. Procurar deixar de lado as relações definidas por status, check-ins, placas e números e procurar estar ativo no presente e ir sempre de encontro às pessoas, seja no espaço privado de nossos lares ou no espaço público. Ocupar não somente os lugares e “não lugares” mas fazer destes locais lugares de trocas de experiências e convívio entre os demais. Sensibilizar o olhar e enxergar além daquilo que podemos ver.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUGÉ, Marc. Não Lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Editora Papirus, 2003.

MAGNANI, José G.C. Quando o campo é a cidade: fazendo antropologia na cidade. In: MAGNANI,J., LUCCA, L. de. Na Metrópole: textos de antropologia urbana. São Paulo: EDUSP, 1996.

Marc Augé: “Com a tecnologia já carregamos o ‘não lugar’ em cima, conosco!”. Entrevista cedida a Carles Geli. Jornal El País, Barcelona, 31 de Janeiro de 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/31/tecnologia/1548961654_584973.html, acessado em 14 de Novembro de 2020.