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por Bianca Roqué

A paisagem não é percebida apenas pelo olhar,

mas pela relação no ato de caminhar. 

O ambiente afeta as pessoas. O vínculo é estabelecido partindo dos pés, que estão em contato imediato, atinge a consciência de uma paisagem que está tão próxima, e tão banalizada no cotidiano. As paisagens do chão. 

Pés e chão se tocam entremeados pelas

solas dos calçados

De um lado a pele que recobre o corpo humano 

De outro, a crosta terrestre onde habitam os corpos 

Eis um elo que enlaça os seres ao mundo:

uma sola de borracha 

As paisagens são logo remetidas à linha do horizonte

Aquele olhar distante,

que enquadra céu, nuvens, montanhas 

Mas quase nunca são observadas

as que estão abaixo dos nossos pés

Sim. Pisamos paisagens.

Do chão emanam cheiros, cores, sons e texturas 

Os pisos possuem um ordenamento estético 

As paisagens não são estáticas. São sentidas e percebidas no ato de caminhar. 

As relações entre pessoas e pisos 

se transformam em um habitar poético

O corpo toca paisagens ao mesmo tempo em que é tocado 

A atmosfera envolve o ser: pelo vento, pela luz, pelas vibrações

Mas a sola dos pés é o contato físico, carnal, constante com o chão 

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areia,

fotografia feita com câmera finepix S2950 - 28mm,

Curitiba, Paraná, Brasil

junho de 2020

Silte, areia, argila e cascalho

se desprenderam de sua rocha mãe e foram experienciar o mundo, nunca mais voltaram.

Rolando, saltitando e suspensos, migraram a jusante. Depois da longa aventura, quando se depositaram para descansar, foram sequestrados por humanos.

Agora, habitam as calçadas da cidade.

Os grãos de quartzo recobrem o pavimento composto por pequenos pedaços que, com as intempéries do tempo, se torna um liso calcário. 

Vivem a desestabilizar a aderência entre pedestre e chão. 

Provocam um leve resvalar do corpo

que sobressalta com a chance de despencar.

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coquinho,

fotografia feita com câmera finepix S2950 - 28mm,

Curitiba, Paraná, Brasil

junho de 2020

Frutos da palmeira,

aglutinados em um cacho, sobressaltam ao chão quando migram de tons verdes para tons amarelados. 

Esperam encontrar a terra, enterrar-se e brotar em novas árvores,

seguindo o ciclo da vida. Em vez disso, o impermeável chão, oriundo da ação antrópica, obriga-os a permanecerem ali, até que apodreçam. 

Aos poucos, distanciam-se do ponto de queda: a cada chuva, a cada vento, a cada chute de pedestre.

Pequenas bolas amarelas se espalham ao longo de toda calçada, e quando são pisadas, algumas rolam entre sola e chão, outras explodem esmagadas. 

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faixa de pedestre,

fotografia feita com câmera finepix S2950 - 28mm,

Curitiba, Paraná, Brasil

junho de 2020

Faixas de pedestres,

são compostas por tinta branca que recobre o asfalto cinza escuro 

Não há apenas a cor, mas também a textura 

A camada de branco forma uma fina película, mais lisa que o asfalto. 

E ao reparar bem, as faixas, além de vistas, 

também podem ser sentidas

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junção,

fotografia feita com câmera finepix S2950 - 28mm,

Curitiba, Paraná, Brasil

junho de 2020

Texturas se encontram.

Convivem lado a lado e transitam as sensações das solas dos pés durante a caminhada. 

Pedras quadradas, lisas e brilhantes, com grande

espaçamento em suas junções, se tornam bloquetes intervalados.

Descontinuidades de texturas formam a colcha de retalhos que recobre as calçadas.

Os pés tateiam uma forma, e poucas pisadas depois, se transforma. 

Durante o trajeto, cada trecho oferece diferentes sensações ao corpo que, em mobilidade, experiencia o mundo.

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grama,

fotografia feita com câmera finepix S2950 - 28mm,

Curitiba, Paraná, Brasil

junho de 2020

Canteiro com grama,

É uma característica especial da cidade de Curitiba. É uma das características que a diferencia de outras capitais do país, e traz charme e elegância para as ruas. 

A grama não é apenas um enfeite, para ser admirado, intocado. Mas faz parte do cardápio de texturas abaixo dos pés, disponível para saborear. 

“Não pise na grama”, dizia a placa implantada por alguém que não deseja ver falhas no tapete verde que recobre o chão 

Para manter a beleza e perfeição da paisagem, priva-se do prazer de sentir a natureza envolver os pés, da troca de energias com o verde e da textura dos finos fios que acariciam a pele