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O que podemos aprender sobre os espaços públicos no contexto pandêmico?

Atualizado: Mar 31

Espaços públicos pandêmicos: lições de uma distopia

Por Kauan Lunardon

Texto apresentado no evento Urbanismo:

espaço e tempo e parcialmente publicado na

revista Políticas Públicas e Cidades, vol. 1 nº. 1.


Algumas das imagens mais marcantes de nossos tempos, e que certamente entrarão para os livros de história, são as das grandes metrópoles mundiais “vazias” durante a pandemia. Fomos acostumados a associar esses espaços com a ideia de movimento, fluxo e velocidade. Vê-los nessa acinesia momentânea, foi motivo de manchetes de noticiários e estopim para várias publicações em redes sociais. O vírus modifica as cidades porque atinge em primeiro lugar os corpos que nela vivem. E não qualquer corpo, o nosso corpo humano. Seria irônico se não fosse trágico que as complicações relacionadas à COVID-19 se dão sobretudo no sistema respiratório. Um ser invisível, quase insignificante que é capaz de nos asfixiar. Parece um enredo distópico, e o é de certa forma. No entanto, uma distopia estritamente real, produzida pelo modelo social que ajudamos a reproduzir.

Se a distopia se coloca tão evidente, olhemos para seu espelho, a utopia. Não como um modelo, ou final em si mesma, mas sim extraindo sua potência enquanto exercício imaginativo. Uma imaginação sobretudo espacial, pois como indica o radical topos, pressupõe em sua constituição, a invenção de um espaço que ainda não existe (FOUCAULT, 1984). Mais do que nunca se mostra evidente que imaginar novos espaços é essencial para descobrir novas possibilidades, e como bem coloca a geógrafa Doreen Massey (2008), as diferentes imaginações espaciais têm repercussões práticas e políticas, podendo justificar situações de opressão e dominação ou potencializar encontros, invenções e apropriações.

Ao sermos obrigados a ficar em casa como estratégia de sobrevivência, é de se pensar sobre os impactos que a situação pandêmica e o isolamento social vêm causando na experiência do espaço público, na sociabilidade urbana, nas imaginações do espaço. Nesse cenário, cita-se o caso de Curitiba, cidade onde vivo e promotora de um protocolo sanitário que ao mesmo tempo que permitiu o funcionamento de shoppings e academias, fecha os parques públicos. Fato que evidencia o modo hegemônico de produção do espaço urbano, principalmente através da ação regulatória do poder público, que valoriza a cidade por meio do seu valor de troca em detrimento do uso.

No texto, “des espaces autres”, Michel Foucault (2004[1967]) reconhece o duplo caráter das utopias. Se por um lado são esses espaços irreais, ou apenas concebidos, eles guardam uma relação direta com o espaço real da sociedade. Não à toa, as utopias pensam uma sociedade melhorada e ideal, e encontram na imagem da cidade uma maneira de se materializarem. Para o geógrafo Rodrigo Valverde (2007), há uma aproximação muito grande entre o discurso utópico e o discurso urbanístico que nasce com a modernidade e encontra grande expressão na obra e no pensamento de Le Corbusier, de inegável influência no modo como as cidades do século XX foram construídas. De acordo com Valverde, a perspectiva empregada pelo Urbanismo em relação ao espaço urbano, e aos espaços públicos por consequência, é marcada pela submissão da forma a função que ela desempenharia, esta por sua vez, pensada de acordo com as necessidades de um sujeito universal.

Muitas das críticas promovidas pela Internacional Situacionista [1] (IS) ao modernismo, se direcionava exatamente à essa visão utópica de sujeito, bem como de cidade. Embora a história tenha mostrado impossível a materialização completa dessa utopia, sua reverberação no plano concebido, por meio de representações do espaço e através do planejamento urbano são evidentes. Tentativas frustradas de setorizações funcionais são percebidas em várias metrópoles brasileiras, sem falar nos inúmeros conjuntos habitacionais que apenas repetem a mesma monótona forma.

Um importante pensador da IS, o arquiteto e artista Constant Nieuwenhuys (1974), também concebeu sua utopia, a Nova Babilônia. Olhar para essa obra artística, que se recusa a caber em um só rótulo, como potência utópica é muito interessante para o ponto que queremos defender. Nessa cidade não há casas, somente passagens, mas que servem mais para encontros que para se deslocar de um ponto a outro. Não há funcionalidades prévias, apenas espaços esperando para serem apropriados. O citadino funcional que habita a cidade moderna como uma máquina, aqui vira um nômade, que precisa descobrir o uso através da experimentação. A Nova Babilônia requer um exercício imaginativo tremendo, apenas para conceber uma paisagem. Ato que não se faz menos custoso ao olhar as maquetes construídas por Constant. E num momento como esse, onde os encontros se mostram tão difíceis, tal utopia como a Nova Babilônia se mostra cada vez mais distante.

Figuras retiradas livro: Constant and the Hyper-Architecture of Desire (WIGLEY, 1998)


Enormous multileveled structures, five to ten hectares in area, are strung together in a chain that spreads across the landscape. This ‘endless expanse’ of interior space is artificially lit and airconditioned. Its inhabitants are given access to ‘powerful, ambience-creating resources’ to construct their own spaces whenever and wherever they desire. The qualities of each space can be adjusted. Light, acoustics, color, ventilation, texture, temperature, and moisture are infinitely variable. Movable floors, partitions, ramps, ladders, bridges, and stairs are used to construct ‘veritable labyrinths of the most heterogeneous form s’ in which desires continuously interact. Sensuous spaces result from action but also generate it: ‘New Babylonians play a game of their own designing, against a backdrop they have designed themselves

M. Wigley, 1998, p. 10

Espaços públicos pandêmicos

Os comércios abertos na Rua XV de Novembro e o movimento apressado dos pedestres sobre o petit-pavet poderiam denotar um dia qualquer pré-pandemia, se não reparássemos nos rostos mascarados. Após quase seis meses de “quarentena” a cidade já se move normalmente, com exceção dos horários de rush das escolas que, até então fechadas, não induzem o fluxo caótico dos motores do final da tarde. Mesmo assim, seria impensável dizer que a vida já é a mesma que era antes.

Se por um lado essa cidade-mercado continua fazendo a cidade se mexer, enchendo ônibus com trabalhadores que se deslocam diariamente da periferia para o centro, apenas para não deixar a roda da economia parar, por outro a cidade-encontro, como espaço aberto (MASSEY, 2008), que possibilita o inesperado, o contato com a alteridade, essa se encontra em via de desaparecer. É dizer, nos termos propostos por Lefebvre (2013), que a cidade como produto, se sobressai à cidade como obra [2].

Nesse cenário, as ruas e as praças se acirram enquanto espaços apenas para a passagem daqueles que vivem na cidade-mercado/produto. Os grupos que insistem em utilizar esses espaços para outros usos, seja para necessidades básicas, seja para a socialização cotidiana, são os citadinos mais marginalizados: pessoas em situação de rua; imigrantes; cicloentregadores & motoboys, trabalhadores de aplicativos precarizados, e que passam a maior parte do seu tempo no espaço público, seja no movimento durante as entregas ou o tempo esperado entre elas. É dizer que são essas pessoas que resgatam um outro valor de uso do Espaço Público, seja para descansar as pernas em algum jardinete ou bricolando uma casa no canto da calçada.

Neste sentido, quando se evidencia em números que, na percepção social, o medo relacionado ao desemprego e à crise econômica são maiores que os de padecimento decorrentes diretamente da doença [3], vemos que há de fato uma relação de domínio entre o espaço abstrato hegemônico e o plano da vida em seu sentido mais imediato. Fenômeno que também se expressa a partir de outros fatos e acontecimentos suscitados pela pandemia, como a decisão precipitada de abertura do comércio [4]; pelo fato de shoppings centers poderem funcionar durante a bandeira “laranja” (de média intensidade) enquanto parques não [5]; ou ainda pela pressão exercida por restaurantes, agora com capacidade mais limitada, para o uso livre da calçada [6].

Figura 1: Sinalização da prefeitura de Curitiba em uma das entradas do Parque Barigui. O autor, agosto de 2020

Todos os acontecimentos citados acima denotam uma imaginação espacial (MASSEY, 2008), que vê a cidade como campo de reprodução do sistema hegemônico, com todas as suas contradições constituintes. É importante marcar que nem sempre tal reprodução se dá de forma consciente, ainda mais quando falamos sobre coisas como imaginação e utopias. No entanto, como demonstrado, as implicações práticas e políticas são evidentes. Se hoje fala-se muito em morte do espaço público, ou de um sentido público do espaço, tal fato se deve há um processo em curso há algum tempo, mas que sofre um acirramento no contexto pandêmico.

Quando Constant concebe a Nova Babilônia, nos joga um desafio imaginativo, que reside na própria impossibilidade de existência dessa cidade. No entanto, é justamente essa distância entre o possível e o impossível, que deve-nos fazer olhar para o real, procurando novas possibilidades. Ou como Lefebvre (2013) aponta, buscar o virtual através do atual. Em tal fato, reside a importância de pensar utopias concretas, na forma de espaços comuns. Comuns pois são ordinários, mas também como o arquiteto grego Stavros Stavrides coloca, porque “encorajam encontros criativos e negociações através das quais formas de compartilhar são organizadas e a vida comum toma forma” [7]. Olhar o comum como algo a ser praticado, convém imaginar o que existe além da cidade-mercado reproduzida diariamente.


Revista Políticas Públicas e Cidades, vol. 1 nº. 1. Disponível em: <https://rppc.emnuvens.com.br/urbanismo/article/download/487/293>.


[1] A Internacional Situacionista foi um movimento artístico-filosófico com sede em Paris, ainda que espalhada por outros países europeus. Teve como nome mais proeminete Guy Debord. As pesquisas e ações do grupo, inspiradas criticamente no trabalho dos dadaístas e surrealistas, tinham como principal pano de fundo os conflitos urbanos sociais emergentes na métade do século XX, como a inserção de imigrantes vindos das ex-colonias. Além disso, muito de suas críticas se direcionava a um resgate da vida urbana, entendida pelo movimento como ameaçada pelo urbanismo modernista. [2] Henri Lefebvre (2013) destaca como efeito da cidade industrial em relação a “cidade tradicional” que a precedeu, a passagem de um espaço absoluto para um espaço abstrato. Aí, a urbe já não é mais obra de seus citadinos, mas produto e meio de reprodução do sistema social dominante. [3] GONÇALVES, A. "Como será Curitiba após a pandemia? Instituto começa a construir cenários" disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/como-sera-curitiba-apos-a-pandemia/ [4] GAZETA do Povo. "Curitiba vai reabrir comércio e obrigar uso de máscaras em locais públicos" disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/rafael-greca-aprova-reabertura-do-comercio- durante-pandemia/ [5] COELHO, Carlos. "Mudança de bandeira: veja quais atividades terão restrições de funcionamento" disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/mudanca-de-bandeira-veja-que-estabelecimentos-terao- alteracao-no-funcionamento/ [6]ABDALLA, Stephanie. "Restaurantes querem uso livre de calçadas para mesas e cadeiras em Curitiba" disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/mercado-e-setor/restaurantes- querem-uso-livre-de-calcadas-para-mesas-e-cadeiras-em-curitiba/ [7]“Encourage creative encounters and negotiations through which forms of sharing are organized and common life takes shape” (STAVRIDES, 2016, p. 02).


Referência bibliográficas

CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer (Ephraim Ferreira Alves, trad.). Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

FOUCAULT, Michel. Des espaces autres. Empan, n. 2, p. 12-19, 2004. Disponível em: <https://www.cairn.info/revue-empan-2004-2-page-12.htm#> acesso em Setembro de 2020.

LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Madrid: Capitán Swing, 2013.

MASSEY, Doreen B. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Bertrand Brasil, 2008.

NIEUWENHUYS, Constant. New Babylon. Constant: New Babylon, v. 154, 1974. Disponível em: <http://studiinterculturali.uniroma1.it/sites/default/files/F.%20Terrenato,%20 Spazio%20degli%20altri%20-%20Nieuwenhuis.pdf> Acesso em julho de 2020.

STAVRIDES, Stavros. Common space: The city as commons. Zed Books Ltd., 2016.

VALVERDE, Rodrigo Ramos Hospodar Felippe. A transformação da noção de espaço público: a tendência à heterotopia no Largo da Carioca. 2007. 255f. 2007. Tese de Doutorado. Tese (Doutorado em Geografia) Instituto de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

WIGLEY, Mark et al. Constant's New Babylon: the hyper-architecture of desire. 010 Publishers, 1998.